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Luís Eduardo Gomes

Em 2003, Liège Gautério passou mal e foi levada a emergência de um hospital. Após passar por uma série de exames, descobriu que sofria de uma fibrose pulmonar. Mesmo não tendo nenhum sintoma, foi informada que a única cura para a doença seria um transplante de pulmão.

“Fui convivendo com essa doença até 2009, quando começaram os sintomas. Tinha dificuldades para correr, para subir escadas”, contou. “A coisa foi se agravando até 2011, quando precisei usar oxigênio 24 horas por dia e entrei em lista de espera”.

Liège esperou cinco meses na fila por um órgão até receber um transplante na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. A cirurgia foi um sucesso. Três meses após o transplante, ela conseguiu voltar ao trabalho e aos treinos – antes de ficar doente conta que fazia natação, pedalava e corria.

Em 2014, tomou conhecimento dos XX Jogos Mundiais para Transplantados, a serem realizados entre os dias 23 e 30 de agosto de 2015 em Mar del Plata, na Argentina. “Quando eu soube dos jogos, aí que eu decidi: ‘vou fazer os 100 metros'”, disse Liège, hoje com 42 anos, acrescentando que essa era uma modalidade em que se destacava no seu tempo de colégio, mas nunca mais tinha praticado depois de adulta. “Comecei a treinar no ano passado”.

Com o tempo de 14,3 segundos, conquistou a medalha de ouro em sua categoria de idade. No dia seguinte, voltaria às pistas para conquistar outra medalha, a prata nos 200 m.

Nesta sexta-feira (25), ao lado do médico que lhe transplantou um novo pulmão, o cirurgião José de Jesus Peixoto Camargo, outros médicos e transplantados, Liège foi homenageada, no Palácio Piratini, durante solenidade que marcou a Semana Nacional de Doação de Órgãos e da qual participaram o governador do Estado, José Ivo Sartori, o presidente da Assembleia Legislativa, Edson Brum, o presidente do Tribunal de Justiça, José Aquino Flôres de Camargo, e o secretário de Saúde, João Gabbardo. A homenagem foi recebida durante solenidade que marcou a Semana Nacional de Doação de Órgãos.

Outro transplantado homenageado foi Pablo Py. Hoje com 34 anos, aos 18 ele foi diagnosticado com uma doença congênita que lhe exigiria um transplante de coração. Por cinco anos, esperou na fila por um órgão. “Nesses cinco anos, finquei indo e voltando do hospital, entrava e saia da lista. Transplantei quando precisava mesmo, estava bem debilitado”.

Três anos após ser transplantado, Py começou a fazer medicina em Rio Grande com o objetivo de se tornar um cirurgião cardíaco e poder ajudar as pessoas que estavam na mesma situação que se encontrava anos antes. “Fiz toda a minha faculdade voltada para isso. Nunca desisti, sabia que era o que eu queria”. Em 2012, se formou. Atualmente, faz residência médica em cirurgia cardíaca no Instituto do Coração, em Porto Alegre.

 

A solenidade também homenageou pelos serviços prestados para o transplante de órgãos o Hospital de Pronto Socorro de Canoas, uma das referências do Estado na área, assim como o Hospital de Tramandaí, Hospital Cristo Redentor de Porto Alegre, a Santa Casa de Uruguaiana, o Hospital Nossa Senhora da Pompeia de Caxias do Sul, o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, o Hospital Bruno Born de Lajeado, o Hospital São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, e os ex-deputados Beto Albuquerque, autor da lei federal que criou a Semana de Mobilização Nacional para a Doação de Medula Óssea, conhecida como Lei Pietro, em homenagem ao seu filho Pietro Albuquerque, que morreu vítima de leucemia mielóide aguda, e Sanchotene Felice, autor da primeira lei sobre a doação de órgãos na Assembleia Legislativa.

 

Secretário da Saúde faz pronunciamento sobre situação dos transplantes no Estado | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

“Doar é legal”

Na solenidade, o secretário Gabbardo anunciou que o governo do Estado e a AL estavam aderindo à campanha “Doar é legal”, lançada pelo TJ em 2009 e que tem o objetivo de facilitar que as pessoas se identifiquem como doadores de órgãos. A partir de agora, para obter uma certidão certificando essa decisão, basta acessar o link para a campanha em qualquer site vinculado aos três poderes – sites do Tribunal de Justiça já abriam essa possibilidade desde 2011.

Segundo o secretário Gabbardo, um dos principais fatores que dificultam a realização de transplantes de órgãos é a dificuldade de convencer as famílias de pacientes com morte cerebral declarada a doar seus órgãos para outras pessoas.

 

Gabbardo anunciou os números dos transplantes no Estado| Foto: Caroline Ferraz/Sul21

“A maior dificuldade e a maior causa de não sucesso na captação é a não autorização da família. 44% das famílias não autorizam a doação mesmo quando diagnosticada a morte encefálica”, afirmou.

Por isso que, segundo ele, o Estado está mudando o foco dos hospitais que fazem transplantes para aqueles que trabalham com a captação. “Sem doação não tem transplante”, disse, salientando ainda a importância de as pessoas se declararem previamente como doadores de órgãos para que suas famílias não precisem tomar uma decisão sobre o tema em um momento de sofrimento.

Estado melhora em ranking de transplantes

De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), pela primeira desde 2007, no primeiro semestre deste ano houve uma queda nos números de potenciais doadores, de doadores efetivos e de transplantes de rim realizados no Brasil.

Contudo, segundo o secretário Gabbardo, o RS tem apresentado melhoras na área neste ano. Até o dia 20 de setembro de 2014, tinham sido feitas 371 notificações de doações e 130 doações efetivas – quando o transplante é realizado. No mesmo período deste ano, as notificações eram 434 e as doações efetivas 172, altas de 17% e 32%. Com isso, o RS chegou ao 3º lugar do ranking nacional de doações efetivadas por milhão de pessoas.

Sartori conversa com o presidente da AL, Edson Brum, durante o evento | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

 

Gabbardo também saudou o fato de o RS liderar o ranking nacional de transplantes de rim e pulmão e por ter zerado neste ano a lista de espera para o transplante de córneas, que, em 2011, chegou a ter mais de 1 mil pessoas e levar mais de um ano.

Sartori defende volta da CPMF

 

Último a falar, o governador Sartori contou histórias de amigos seus que passaram por transplantes de órgãos, fez brincadeiras com o termo “transplantado”e defendeu recriação da CPMF, desde que exclusiva para a Saúde e dividida com Estados e municípios. Ele fechou seu pronunciamento dizendo que iria citar Nietzsche, lendo um trecho do livro “Nietzche para estressados”, de Allan Percy:

 

 

“Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada. Quando sentimos que oferecemos algo ao próximo, de repente tomamos consciência de nosso valor. Ninguém é mais pobre que uma pessoa que não dá nada, pois é na doação que demonstramos nossa riqueza”, concluiu, inspirado, o governador.

 

 

Editoria: Geralz_AreazeroPalavras-chave: doação de órgãosdoar é legalJoão GabbardoJosé Ivo Sartoriliège GautérioPablo PySemana Nacional da Doação de Órgãostransplante de órgãos

Medalhista e transplantado que virou cirurgião: governo homenageia médicos e pacientes

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Fonte :/www.sul21.com.br